ALETHEIA

O que realmente nos diferencia dos outros animais?

Durante muito tempo, pareceu relativamente fácil dizer o que separava os seres humanos dos outros animais. Fabricamos ferramentas, transmitimos conhecimento, cooperamos, planejamos o futuro, nos comunicamos por sistemas complexos e construímos culturas. Cada uma dessas capacidades já ocupou, em algum momento, a posição confortável de fronteira entre nós e o restante da vida.

O problema é que muitas dessas fronteiras começaram a desaparecer quando outras espécies passaram a ser observadas com mais atenção. Chimpanzés apresentam tradições comportamentais que variam entre populações. Corvos fabricam ferramentas e conseguem combinar objetos para produzir instrumentos novos. Algumas aves ajustam seu comportamento a situações futuras. Cooperação, aprendizagem social, reconhecimento de indivíduos e sistemas sofisticados de comunicação aparecem em diferentes ramos da evolução.[1][2]

Nada disso significa que humanos e outros animais sejam cognitivamente equivalentes. Significa algo mais importante para a comparação: possuir uma capacidade e possuí-la da mesma maneira são coisas diferentes.

A pergunta, portanto, não é apenas quais características temos e outros animais não têm. É também quais compartilhamos, em que grau aparecem, como estão organizadas e o que acontece quando várias delas passam a operar juntas.

Uma característica pode ser diferente de várias maneiras

Quando dizemos que determinada capacidade é “humana”, podemos estar dizendo coisas muito diferentes.

Ela pode ser realmente exclusiva da nossa espécie. Pode existir em outros animais, mas alcançar em humanos uma potência maior. Pode ser formada por componentes encontrados separadamente em outras espécies, porém organizados de modo diferente. Ou pode não ser excepcional isoladamente e adquirir efeitos extraordinários quando combinada a outras capacidades.

Essas possibilidades não são equivalentes, e confundi-las torna a fronteira entre humanos e outros animais mais simples do que a evidência permite.

Um corvo conseguir fabricar uma ferramenta não significa que sua tecnologia seja equivalente à humana. Significa, porém, que fabricar ferramentas não basta para definir a humanidade. Chimpanzés de diferentes populações também apresentam repertórios distintos de uso de ferramentas e outras práticas transmitidas socialmente, um dos conjuntos de evidências que ajudaram a consolidar a ideia de que formas de cultura não começam conosco.[1]

Algo semelhante ocorre com o planejamento. Experimentos com gaios mostraram comportamentos orientados para necessidades futuras, contrariando versões fortes da ideia de que somente humanos conseguem agir em função de uma situação que ainda não existe.[2] Isso está muito distante de planejar uma universidade, uma missão espacial ou décadas de vida. Ainda assim, a distinção já não pode ser traçada simplesmente entre quem planeja e quem não planeja.

O mesmo deslocamento aparece em várias capacidades. Quanto mais examinamos cada uma isoladamente, mais difícil fica encontrar uma propriedade capaz de sustentar sozinha uma separação absoluta entre Homo sapiens e todas as outras espécies.

Comunicação não é o mesmo que linguagem

Talvez a linguagem pareça uma candidata mais resistente.

Outras espécies comunicam informações sobre alimento, perigo, identidade, reprodução, posição social e diferentes aspectos do ambiente. Alguns sistemas apresentam combinações de sinais cujo significado depende, em alguma medida, da forma como seus elementos são associados. Reduzir toda comunicação animal a reflexos simples ignoraria uma parte relevante do que a pesquisa comparativa encontrou.

O erro oposto seria chamar qualquer comunicação complexa de linguagem e, com isso, apagar justamente a diferença que precisamos compreender.

Ao revisar evidências de sintaxe e composicionalidade na comunicação animal, Klaus Zuberbühler mostra que algumas propriedades combinatórias apresentam paralelos fora da nossa espécie. Ao mesmo tempo, permanece uma distância importante entre esses sistemas e a sintaxe generativa e hierarquicamente estruturada característica da linguagem humana.[3]

Essa diferença não diz respeito apenas à quantidade de sinais disponíveis. Com um repertório finito de elementos e regras, conseguimos formular e compreender combinações novas em escala extraordinária. Podemos falar sobre uma caça ocorrida ontem, uma dívida que vencerá no próximo ano, um ancestral que nunca conhecemos, um número que não corresponde a nenhum objeto presente ou uma sociedade que ainda não existe.

A linguagem amplia, assim, não apenas aquilo que podemos comunicar, mas também aquilo que pode ser representado, relacionado, preservado e transmitido.

Ainda assim, linguagem sozinha não explica o que a humanidade se tornou. Um ser humano não nasce sabendo matemática, direito, engenharia ou medicina. Para que essas possibilidades existam, informação precisa sobreviver às pessoas que a produziram e chegar a indivíduos que não participaram de sua origem.

É nesse ponto que a cultura se torna decisiva.

Ter cultura também deixou de ser uma exclusividade simples

Em 1999, Andrew Whiten e colaboradores reuniram décadas de observações de populações de chimpanzés e identificaram diferenças comportamentais persistentes entre comunidades que não pareciam ser explicadas satisfatoriamente apenas por diferenças ecológicas ou genéticas. O trabalho tornou-se uma referência importante para a discussão de culturas animais.[1]

Desde então, aprendizagem social e tradições foram investigadas em diversas outras espécies. A fronteira segundo a qual humanos possuem cultura e outros animais não possuem tornou-se difícil de sustentar.

Durante algum tempo, uma alternativa pareceu preservar uma distinção clara: talvez outras espécies tivessem cultura, mas somente humanos possuíssem cultura cumulativa, na qual inovações são preservadas e posteriormente modificadas, permitindo que gerações seguintes partam de um ponto que nenhuma delas precisou reconstruir sozinha.

Essa distinção continua relevante, mas também se tornou menos binária.

Thomas Morgan e Marcus Feldman argumentam que mudança cumulativa e transmissão de alta fidelidade apresentam manifestações fora de nossa espécie e, por isso, não constituem, isoladamente, uma fronteira segura. Para os autores, uma característica mais distintiva da cultura humana está em sua extraordinária abertura: nosso repertório cultural consegue continuar explorando novas combinações, funções e trajetórias em uma escala incomum.[4]

A diferença é sutil, mas muda a pergunta. Já não basta saber se um comportamento passa de um indivíduo para outro. É preciso observar quanto um sistema cultural pode crescer, quanto pode se transformar sem voltar ao ponto de partida e quantas possibilidades novas consegue gerar.

Uma técnica pode depender de ferramentas produzidas por técnicas anteriores. Um instrumento pode permitir a construção de outro instrumento. Uma teoria pode utilizar conceitos desenvolvidos séculos antes por pessoas que jamais poderiam ter previsto suas aplicações futuras. Quando isso ocorre repetidamente, já não estamos diante apenas de indivíduos aprendendo uns com os outros, mas de sistemas nos quais informação sobrevive, acumula-se e pode ser recombinada.

Explicar integralmente como esse processo atingiu tamanha escala em nossa espécie exige outra investigação. Aqui, a comparação com outros animais já permite perceber por que essa dimensão importa.

Cooperar é antigo; coordenar desconhecidos é outra questão

Cooperação também não começou conosco.

Alicia Melis e Nichola Raihani mostram que diferentes formas de cooperação aparecem amplamente no mundo animal, embora variem em mecanismos e exigências cognitivas.[5] Animais podem cooperar em defesa, alimentação, reprodução, cuidado e outras atividades, e algumas dessas formas sequer exigem reconhecimento individual complexo dos parceiros.

Por isso, dizer que a humanidade prosperou porque “aprendeu a cooperar” é insuficiente. O contraste mais interessante aparece quando a cooperação humana deixa de depender apenas de relações próximas ou de interações imediatas.

Pagamos pessoas que nunca vimos. Seguimos regras formuladas por indivíduos mortos antes de nascermos. Trabalhamos em organizações nas quais milhares de pessoas executam funções complementares sem conhecer a maior parte das demais. Podemos participar de projetos cujos resultados só aparecerão décadas depois.

Nada disso depende apenas de disposição para ajudar. Requer papéis, expectativas, reputações, normas, linguagem, memória externa, instituições e mecanismos capazes de estabilizar a coordenação entre pessoas que não precisam compartilhar intimidade, parentesco ou contato direto.

Essa capacidade também não contém qualquer triunfo moral automático. Os mesmos recursos que permitem hospitais, universidades ou sistemas de abastecimento podem sustentar guerras, perseguições e outras formas organizadas de violência. A singularidade de uma capacidade social não determina o valor do uso que fazemos dela.

Cooperação e conflito, portanto, não formam uma escala na qual espécies ou sociedades possam ser ordenadas das “menos” para as “mais” desenvolvidas. São fenômenos que podem coexistir dentro dos mesmos sistemas sociais.

O problema de medir outra espécie com uma régua humana

Antes de transformar qualquer diferença experimental em diferença de espécie, existe uma dificuldade metodológica básica: comparar mentes que evoluíram em corpos, ambientes e sistemas perceptivos diferentes.

Um teste elaborado por seres humanos é inevitavelmente construído a partir de nossas formas de perceber, manipular objetos, prestar atenção, compreender situações e responder a incentivos. Isso pode criar diferenças aparentes que não correspondem diretamente às capacidades que o experimento pretende medir.

Um animal pode fracassar porque não compreende a tarefa, não está motivado pelo incentivo utilizado, não consegue manipular o equipamento como esperado ou depende de uma modalidade sensorial que o experimento praticamente ignora. Revisões metodológicas da cognição comparada chamam atenção justamente para esse problema: desempenho observado e capacidade cognitiva não são sinônimos, e fatores não cognitivos podem alterar de forma importante o resultado de uma tarefa.[6]

O teste do espelho ilustra bem essa dificuldade. Reconhecer uma marca no próprio corpo por meio de um reflexo pode revelar algo relevante sobre determinadas formas de processamento de si. Mas transformar esse desempenho em uma medida universal de autoconsciência pressupõe que visão, espelhos e exploração corporal possuam importância semelhante para espécies que percebem e interagem com o ambiente de maneiras muito diferentes.[7]

Até mesmo o cérebro pode se tornar uma régua enganosa quando reduzido a uma única medida.

Aves possuem cérebros muito menores que os de muitos mamíferos, mas estudos sobre organização neuronal mostram que corvídeos e papagaios podem concentrar grande número de neurônios no prosencéfalo. O trabalho de Seweryn Olkowicz e colaboradores ajudou a mostrar por que volume cerebral, isoladamente, é insuficiente para ordenar capacidades cognitivas.[8]

A evolução não produz uma escada na qual cada espécie ocupa um degrau acima ou abaixo de outra. Produz linhagens que enfrentam problemas diferentes por meio de corpos, sentidos, ambientes e histórias evolutivas diferentes.

Por isso, perguntar “qual animal é mais inteligente?” costuma comprimir em uma única escala capacidades que não necessariamente variam juntas. Memória, percepção espacial, controle inibitório, aprendizagem social, comunicação, planejamento e resolução de problemas podem assumir combinações muito diferentes. A hierarquia que esperamos encontrar talvez esteja, em parte, na própria pergunta que fazemos.

Talvez a diferença apareça no que as capacidades fazem juntas

Quando ferramentas, planejamento, cultura, comunicação e cooperação deixam de funcionar como fronteiras simples, surge uma tentação inversa: concluir que nenhuma diferença particularmente importante existe.

Isso seria apenas substituir um excesso por outro.

Nenhuma outra espécie conhecida construiu sistemas científicos capazes de reconstruir a história do Universo, redes econômicas planetárias, bibliotecas que preservam conhecimento por séculos, instituições jurídicas abstratas ou tecnologias capazes de alterar deliberadamente genomas.

Reconhecer essa singularidade de efeitos não exige imaginar uma essência humana fora da biologia. A diferença pode emergir justamente da forma como capacidades biologicamente enraizadas passam a ampliar umas às outras.

Uma linguagem capaz de representar relações ausentes expande aquilo que pode ser ensinado. A aprendizagem social preserva descobertas que outros indivíduos não precisam reinventar. Ferramentas incorporam conhecimento em objetos. Registros externos permitem que informação sobreviva às pessoas que a produziram. Normas e instituições estabilizam formas de coordenação. Novas gerações, por sua vez, não começam no mesmo ponto das anteriores: encontram um ambiente material, simbólico e social já modificado por quem veio antes.

Nenhuma dessas capacidades precisa explicar a humanidade isoladamente. O efeito aparece na interação entre elas e na possibilidade de seus resultados permanecerem disponíveis para novos indivíduos.

Isso também muda a imagem que fazemos do próprio ser humano. Uma pessoa contemporânea pode utilizar um smartphone sem saber fabricar semicondutores, tomar um medicamento sem dominar farmacologia e atravessar uma ponte sem conhecer cálculo estrutural. As capacidades de que dispõe não dependem apenas do que seu cérebro consegue produzir sozinho.

Dependem de uma herança cognitiva distribuída entre outras pessoas, objetos, registros, instituições e gerações.

É nesse ponto que a comparação com outros animais revela algo menos evidente sobre nós: parte da potência humana não está contida no indivíduo humano. Ela existe também nas estruturas que permitem a cada indivíduo acessar conhecimentos, ferramentas e formas de coordenação que nenhuma pessoa poderia reconstruir sozinha durante uma única vida.

Ser singular não significa estar separado da vida

Talvez nunca encontremos uma única característica capaz de traçar uma linha perfeita entre Homo sapiens e todas as outras espécies. A própria expectativa de que essa característica precise existir pode ser parte do problema.

Somos animais. Compartilhamos uma história evolutiva, mecanismos biológicos, necessidades e diferentes componentes de nossas capacidades com outras formas de vida. Quanto melhor estudamos outras espécies, mais difícil fica sustentar que ferramentas, comunicação, planejamento, cultura ou cooperação tenham surgido do nada apenas conosco.

Mas continuidade não significa identidade.

Em nossa linhagem, algumas capacidades assumiram formas e escalas que, combinadas, permitiram sistemas simbólicos extensos, cultura extraordinariamente aberta, coordenação entre grandes números de pessoas e conhecimento capaz de sobreviver e se expandir muito além da vida de qualquer indivíduo.

A formulação mais rigorosa, portanto, não exige escolher entre afirmar que somos radicalmente separados do restante da vida ou que nada em nossa espécie é particularmente diferente. É possível reconhecer uma singularidade humana sem transformá-la em excepcionalismo: uma configuração específica pode produzir efeitos extraordinários sem retirar Homo sapiens da história biológica da qual surgiu nem colocá-lo no topo de uma hierarquia universal.

Essa perspectiva também desloca a pergunta sobre o que somos. Se uma parcela decisiva de nossas capacidades depende de conhecimentos, artefatos e instituições que recebemos de outros, aquilo que chamamos de “capacidade humana” não pertence inteiramente ao indivíduo. Cada pessoa nasce biologicamente humana, mas entra em um mundo cognitivo construído antes dela.

A consequência é maior do que simplesmente reconhecer que aprendemos uns com os outros. Significa que parte importante da singularidade humana pode estar na possibilidade de transformar conquistas individuais em condições de partida para pessoas que ainda não existem.

Quando isso acontece de maneira reiterada, conhecimento deixa de depender da duração de uma vida e passa a adquirir uma história própria.

É justamente aí que se abre a próxima pergunta: o que tornou possível aos seres humanos acumular conhecimento de maneira tão extensa ao longo das gerações?

Referências

[1] Whiten, A.; Goodall, J.; McGrew, W. C. et al. Cultures in chimpanzees. Nature, 399, 682–685, 1999.

[2] Raby, C. R.; Alexis, D. M.; Dickinson, A.; Clayton, N. S. Planning for the future by western scrub-jays. Nature, 445, 919–921, 2007. Ver também: von Bayern, A. M. P.; Danel, S.; Auersperg, A. M. I.; Mioduszewska, B.; Kacelnik, A. Compound tool construction by New Caledonian crows. Scientific Reports, 8, 15676, 2018.

[3] Zuberbühler, K. Syntax and compositionality in animal communication. Philosophical Transactions of the Royal Society B, 375, 20190062, 2020.

[4] Morgan, T. J. H.; Feldman, M. W. Human culture is uniquely open-ended rather than uniquely cumulative. Nature Human Behaviour, 9, 28–42, 2025.

[5] Melis, A. P.; Raihani, N. J. The cognitive challenges of cooperation in human and nonhuman animals. Nature Reviews Psychology, 2, 523–536, 2023.

[6] Schubiger, M. N.; Fichtel, C.; Burkart, J. M. Validity of cognitive tests for non-human animals: pitfalls and prospects. Frontiers in Psychology, 11, 1835, 2020.

[7] Lei, Y. Sociality and self-awareness in animals. Frontiers in Psychology, 13, 1065638, 2023.

[8] Olkowicz, S.; Kocourek, M.; Lučan, R. K. et al. Birds have primate-like numbers of neurons in the forebrain. Proceedings of the National Academy of Sciences, 113, 7255–7260, 2016.

Para aprofundar

Duas leituras selecionadas para aprofundar a comparação entre cognição humana e animal e algumas das capacidades que tornam nossa espécie particular.

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