Imagine duas pessoas classificadas como de direita. Ambas defendem maior liberdade para empresas e mercados. Quando a discussão passa para costumes, porém, uma considera que o Estado deveria interferir pouco nas escolhas pessoais, enquanto a outra aceita restrições mais amplas em nome de valores que deseja preservar. Elas continuam pertencendo à mesma direita? Talvez. Mas essa classificação já não diz tudo o que gostaríamos de saber sobre suas posições.
Algo semelhante pode acontecer à esquerda. Duas pessoas podem apoiar políticas de redistribuição de renda e divergir profundamente sobre imigração, religião no espaço público, segurança ou mudanças culturais. Um partido pode parecer moderado quando resumido numa escala geral e ocupar posições bem menos moderadas quando algumas questões são observadas separadamente.
Nada disso torna esquerda e direita categorias vazias. Como vimos anteriormente, esses rótulos condensam conflitos políticos reais e continuam oferecendo orientação. O problema começa quando esperamos que uma coordenada geral carregue informações que ela não contém.
Uma linha pode ser um bom mapa. Mas nenhum mapa mostra tudo.
Uma linha funciona porque comprime
A força da escala esquerda–direita está justamente em sua simplicidade.
Em vez de reconstruir dezenas de posições para localizar alguém politicamente, podemos condensar muita informação numa única coordenada. Essa compressão tem utilidade concreta. Christophe Lesschaeve, ao comparar posições de eleitores e partidos na Europa Ocidental, encontrou que a localização geral esquerda–direita era particularmente eficiente para predizer as posições programáticas dos partidos, embora funcionasse pior como substituta das preferências específicas dos eleitores.[1]
Isso ajuda a entender por que a escala persiste. Programas partidários agregam propostas e ocupam posições reconhecíveis dentro da competição política. Uma classificação geral consegue captar parte desse padrão sem reproduzir cada detalhe.
A dificuldade aparece quando confundimos resumo com descrição completa.
Considere alguém que apoie menos regulação econômica. Essa informação pode ajudar a estimar sua posição geral em determinado sistema político. Mas ela não contém, por lógica, sua opinião sobre imigração, direitos civis, religião, polícia ou política externa. Para fazer essas inferências, precisamos supor que posições diferentes caminham juntas.
Às vezes caminham. Às vezes não.
É nesse ponto que uma única linha começa a perder resolução.
Posições diferentes nem sempre andam juntas
Quando pesquisadores observam atitudes políticas separadamente, encontram estruturas que uma escala única pode esconder.
Devin Caughey, Tom O’Grady e Christopher Warshaw reuniram quase 2,7 milhões de respostas a pesquisas realizadas em 27 países europeus entre 1981 e 2016. Em vez de tratar todas as posições como expressão de uma única variável, produziram medidas distintas para domínios econômicos, sociais e relacionados à imigração. Os resultados revelaram diferenças entre países, grupos e períodos que medidas unidimensionais não reproduziam bem.[2]
Isso não significa que economia, costumes e imigração sejam universos independentes, nem que cada questão política precise de um eixo próprio. O resultado é mais restrito: diferenças encontradas em um domínio não precisam se repetir exatamente em outro.
A comparação internacional reforça esse ponto.
Ariel Malka, Yphtach Lelkes e Christopher Soto examinaram dados de 99 países para investigar se conservadorismo econômico e conservadorismo cultural costumam se alinhar da maneira convencionalmente associada à direita e à esquerda. Esse alinhamento estava longe de ser universal. Em diferentes contextos, posições economicamente e culturalmente consideradas de direita apresentavam associação fraca ou até inversa.[3]
Saber onde alguém se encontra numa questão econômica, portanto, não determina automaticamente onde estará numa questão cultural.
Combinações que parecem contraditórias quando observadas por uma única linha podem deixar de parecer estranhas quando aumentamos a resolução. Uma pessoa pode desejar mercados relativamente mais livres e defender maior ou menor interferência sobre escolhas pessoais. Outra pode apoiar redistribuição econômica e conservar posições tradicionais em determinados temas sociais. Nacionalismo, por sua vez, não contém sozinho um programa econômico completo.
Essas combinações também não são apenas possibilidades imaginárias. Noam Gidron identificou na Europa Ocidental grupos de eleitores com posições econômicas e culturais cruzadas.[4]
Seria igualmente errado concluir que todas as opiniões políticas são fragmentadas. Há correlações, coalizões e padrões. O que a evidência não permite é transformar uma posição geral num inventário automático das demais.
Pessoa, partido e classificação são objetos diferentes
Há outra fonte de confusão escondida numa pergunta aparentemente simples como “onde isso fica no espectro político?”.
O que exatamente estamos localizando?
Pode ser uma pessoa respondendo a uma pesquisa. Pode ser o programa de um partido. Pode ser a avaliação que especialistas fazem desse partido. Pode ainda ser a percepção formada por eleitores, jornalistas ou adversários.
Esses objetos podem se aproximar, mas não são equivalentes.
A diferença entre eleitores e partidos aparece no próprio estudo de Lesschaeve: a escala esquerda–direita resumiu muito melhor as posições partidárias do que as preferências específicas dos eleitores.[1] Programas partidários agregam propostas; indivíduos não precisam organizar todas as suas opiniões num conjunto perfeitamente coerente.
A forma como pesquisadores medem partidos também mostra por que uma única coordenada nem sempre basta. O Chapel Hill Expert Survey, que acompanha partidos europeus desde 1999, mantém simultaneamente medidas de esquerda–direita geral, esquerda–direita econômica e uma dimensão sociocultural conhecida como GAL–TAN, além de posições específicas sobre temas como imigração, redistribuição e integração europeia.[5]
O ponto não é escolher uma dessas escalas como a verdadeira. É perceber que a mesma pesquisa preserva uma posição geral e posições mais detalhadas porque elas respondem a perguntas diferentes.
Essa distinção também muda a maneira de interpretar o centro. Uma classificação geral centrista pode representar posições moderadas em vários assuntos. Mas também pode resumir um perfil que se aproxima de um lado em determinada dimensão e de outro em outra. A coordenada final, isoladamente, não revela qual dessas estruturas está por trás dela.
Por isso, estar no centro de uma escala geral não significa necessariamente ocupar o meio em todas as questões.
O mapa também muda com o contexto
Não são apenas pessoas e partidos que mudam. A estrutura do conflito político também pode mudar.
Catherine de Vries, Armen Hakhverdian e Bram Lancee examinaram a identificação esquerda–direita de eleitores nos Países Baixos entre 1980 e 2006. Ao longo do período, atitudes relacionadas à imigração ganharam importância para explicar o autoposicionamento esquerda–direita, enquanto a relação com atitudes sobre redistribuição perdeu força relativa.[6]
Isso não significa que a economia tenha deixado de importar. Mostra que o conteúdo carregado por uma coordenada política pode responder às questões que ganham ou perdem centralidade numa sociedade.
Por essa razão, transportar mecanicamente rótulos entre países ou períodos pode produzir erros.
Em um sistema político, determinada disputa religiosa pode organizar fortemente a competição. Em outro, pode ocupar posição secundária. Nacionalismo pode aparecer associado a combinações econômicas distintas. Questões sobre integração internacional podem aproximar atores que permanecem distantes em política doméstica.
Até o significado prático de estar “mais à direita” depende, em alguma medida, do espaço político observado.
Isso não torna a classificação arbitrária. Se fosse, ela pouco ajudaria a identificar padrões. O ponto é outro: uma escala política resume uma estrutura existente em certo contexto. Quando essa estrutura muda, parte do conteúdo condensado pela coordenada também pode mudar.
Mais eixos recuperam informação, mas não encerram o problema
A reação intuitiva ao limite de uma linha é desenhar duas.
Um eixo poderia representar questões econômicas; outro, questões culturais ou relacionadas à autoridade. Muitas representações populares da política adotam alguma versão dessa solução.
Há uma vantagem real. Se duas pessoas aparecem próximas na dimensão econômica e distantes na cultural, um gráfico bidimensional preserva uma diferença que desapareceria numa única linha.
Mas surge outra pergunta: por que exatamente esses dois eixos?
A pesquisa empírica não entrega uma taxonomia universal. Caughey, O’Grady e Warshaw separaram domínios econômicos, sociais e de imigração.[2] O Chapel Hill Expert Survey utiliza outra estrutura para analisar partidos.[5] Em certos contextos, religião, integração supranacional, nacionalismo, meio ambiente ou outras disputas podem adquirir importância suficiente para exigir tratamento próprio.
Escolher as dimensões já é escolher parte do que aparecerá no mapa.
Depois ainda é preciso decidir como medi-las, quais perguntas representarão cada uma e como comparar posições entre contextos. Acrescentar eixos recupera informação, mas não elimina a compressão. Toda representação acaba selecionando o que conservar e o que deixar de fora.
Não há, portanto, razão para substituir a crença numa linha perfeita pela crença numa bússola perfeita.
Um mapa político deve ser julgado pela pergunta que consegue responder.
Se queremos orientação geral sobre famílias políticas e competição partidária, esquerda e direita podem oferecer resolução suficiente. Se queremos saber o que determinado grupo propõe sobre tributação, imigração, liberdade individual ou autoridade política, talvez seja preciso observar diretamente essas posições. Se queremos comparar sociedades ou períodos diferentes, precisamos perguntar também se as coordenadas preservam o mesmo conteúdo.
Simplificar não é necessariamente o problema. O problema é esquecer o que a simplificação deixou de fora.
Antes de perguntar de que lado, pergunte em relação a quê
Então, até onde uma única linha consegue explicar a política?
Mais longe do que sugerem aqueles que tratam esquerda e direita como palavras vazias. A escala condensa diferenças recorrentes e, em determinadas situações, resume posições com eficiência.[1] Mas menos longe do que supomos quando usamos um rótulo geral para preencher automaticamente todas as posições que desconhecemos.
A evidência sobre atitudes individuais, partidos e diferentes países mostra desalinhamentos relevantes e variação no conteúdo das próprias classificações.[2][3][4][6] Modelos com mais dimensões recuperam parte dessa informação, mas continuam selecionando aquilo que será representado.
Para a CERNELUME, o critério mais defensável não é procurar o mapa mais complicado. É exigir do mapa uma resolução compatível com a conclusão que queremos tirar dele.
Perguntar se alguém está à esquerda ou à direita pode ser perfeitamente útil. O cuidado está no passo seguinte: não atribuir ao rótulo respostas que nunca foram observadas.
Quando a diferença realmente importa, uma pergunta simples melhora a análise:
à esquerda ou à direita em qual dimensão, sobre qual questão e dentro de qual contexto?
O mapa continua útil. Apenas deixa de ser confundido com o território.
Referências
[1] Lesschaeve, C. (2017). The Predictive Power of the Left-Right Self-Placement Scale for the Policy Positions of Voters and Parties. West European Politics, 40(2), 357–377. DOI: 10.1080/01402382.2016.1229088.
[2] Caughey, D.; O’Grady, T.; Warshaw, C. (2019). Policy Ideology in European Mass Publics, 1981–2016. American Political Science Review, 113(3), 674–693. DOI: 10.1017/S0003055419000157.
[3] Malka, A.; Lelkes, Y.; Soto, C. J. (2019). Are Cultural and Economic Conservatism Positively Correlated? A Large-Scale Cross-National Test. British Journal of Political Science, 49(3), 1045–1069. DOI: 10.1017/S0007123417000072.
[4] Gidron, N. (2022). Many Ways to be Right: Cross-Pressured Voters in Western Europe. British Journal of Political Science, 52(1), 146–161. DOI: 10.1017/S0007123420000228.
[5] Rovny, J.; Polk, J.; Bakker, R.; Hooghe, L.; Jolly, S.; Marks, G.; Steenbergen, M.; Vachudova, M. A. (2025). The 2024 Chapel Hill Expert Survey on Political Party Positioning in Europe: Twenty-Five Years of Party Positional Data. Electoral Studies, 97, 102981. DOI: 10.1016/j.electstud.2025.102981.
[6] De Vries, C. E.; Hakhverdian, A.; Lancee, B. (2013). The Dynamics of Voters’ Left/Right Identification: The Role of Economic and Cultural Attitudes. Political Science Research and Methods, 1(2), 223–238. DOI: 10.1017/psrm.2013.4.
