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Um rótulo de origem costuma oferecer uma resposta simples sobre um produto: ele foi “feito” em determinado país. Para fins jurídicos, aduaneiros ou comerciais, essa identificação pode estar correta. O problema começa quando ela é usada como se descrevesse toda a trajetória produtiva do bem. Um produto montado em um país pode incorporar materiais extraídos em outro, componentes fabricados em vários outros, software desenvolvido longe dali e uma rede de serviços que coordena transporte, informação, qualidade e prazos.
Essa diferença ajuda a explicar uma transformação central da produção contemporânea. Em muitos setores, certas etapas deixaram de precisar permanecer reunidas na mesma fábrica, na mesma empresa ou no mesmo território. Elas puderam ser separadas geograficamente e, ainda assim, continuar pertencendo ao mesmo processo produtivo. É essa possibilidade que sustenta a expansão das cadeias globais de valor, sobretudo desde as últimas décadas do século XX.[1][8]
Por isso, a pergunta “onde este produto é feito?” passou a exigir mais cuidado. Em vez de procurar apenas o local da montagem final, é preciso entender quais tarefas foram distribuídas, que capacidades cada lugar fornece e quais relações permitem recompor essas partes em um produto único.
O país do rótulo não conta sozinho onde o produto foi feito
Comércio internacional existe há séculos, mas uma cadeia produtiva internacional não é apenas comércio em maior escala. Há diferença entre importar um bem acabado e dividir o próprio processo produtivo entre diferentes lugares. Numa cadeia fragmentada, bens intermediários, especificações, serviços e decisões cruzam fronteiras antes que o produto final chegue ao consumidor.
A OCDE descreve cadeias globais de valor como redes em que atividades de produção e serviços são distribuídas entre economias e firmas.[8] O Banco Mundial mostrou como essa forma de organização ganhou peso rapidamente depois de 1990 e passou a ocupar um lugar estrutural no comércio contemporâneo.[1] A evidência mais recente também não indica desaparecimento desse modelo. Segundo a OCDE, o comércio realizado por meio de cadeias globais de valor alcançou níveis historicamente elevados em 2024, embora a organização ressalte que as cadeias vêm sendo reconfiguradas de maneiras diferentes entre setores e regiões.[2]
O deslocamento importante está na unidade de análise. Fábrica, empresa e país continuam indispensáveis para entender produção, propriedade, instituições e trabalho, mas nem sempre descrevem sozinhos como um produto foi construído. A cadeia acrescenta outra escala e permite seguir atividades ligadas ao mesmo resultado econômico mesmo quando estão distribuídas entre organizações, contratos e territórios distintos.
Fragmentar a produção só funciona quando coordenar custa menos do que concentrar
Separar etapas entre países pode parecer uma consequência quase automática de diferenças de salários, matérias-primas ou especialização. Esses fatores criam incentivos, mas não garantem que a separação funcione. Uma etapa deslocada precisa continuar conectada às demais, e essa conexão cria custos que não existiriam da mesma forma se tudo permanecesse concentrado.
Peças precisam viajar, especificações precisam chegar sem ambiguidade, padrões de qualidade precisam ser verificáveis e prazos precisam permanecer sincronizados. Contratos, fronteiras, procedimentos aduaneiros e riscos de atraso também entram na conta. Quando um bem intermediário atravessa mais de uma fronteira ao longo do processo, pequenas fricções podem se acumular e anular parte do ganho obtido ao produzir cada etapa onde ela parece mais vantajosa.
A expansão das cadeias internacionais dependeu, portanto, de uma redução suficiente desses custos de coordenação. Transporte mais confiável, logística mais sofisticada, facilitação comercial e melhor infraestrutura de comunicação tornaram possível distribuir atividades sem transformar cada conexão em um gargalo. A Organização Mundial do Comércio identifica transporte, custos de informação e transação, conectividade digital, diferenças regulatórias e qualidade institucional entre os elementos que afetam os custos de comércio.[3]
A mudança decisiva não foi o desaparecimento da distância, mas a possibilidade de administrá-la em determinadas atividades. Quando os ganhos de especialização superam os custos adicionais de separar, transportar, supervisionar e recombinar tarefas, produzir cada parte no mesmo lugar deixa de ser a única arquitetura economicamente viável. Quando essa relação não compensa, proximidade e integração continuam fazendo sentido.
A distância diminui quando especificações, padrões e informação conseguem viajar
Uma peça pode percorrer milhares de quilômetros e ainda assim não servir para nada se não chegar com as características certas. Por isso, cadeias distribuídas dependem não apenas do movimento físico dos bens, mas da capacidade de transmitir conhecimento suficiente para que uma etapa realizada longe continue compatível com o restante do processo.
Dimensões, tolerâncias, materiais, interfaces, testes e requisitos de qualidade precisam ser descritos de modo suficientemente preciso. Quanto mais uma tarefa pode ser especificada, codificada, monitorada e verificada, maior tende a ser a possibilidade de separá-la do local em que outras tarefas são executadas.
A pesquisa de Teresa Fort ajuda a tornar esse mecanismo concreto. Estudando firmas dos Estados Unidos, ela encontrou associação entre adoção de tecnologias de comunicação e maior fragmentação produtiva, com efeito mais forte em indústrias cujas especificações eram mais fáceis de codificar eletronicamente.[4] O mesmo estudo, porém, impõe um limite importante à interpretação: o efeito da tecnologia foi maior sobre a fragmentação doméstica do que sobre a estrangeira. Digitalização reduz custos de coordenação, mas não transforma automaticamente uma tarefa em offshoring.
Essa ressalva impede uma explicação tecnológica simplista. Sistemas digitais podem tornar informação mais barata de transmitir, mas não criam por si mesmos fornecedores competentes, infraestrutura logística, padrões compatíveis ou relações capazes de resolver problemas imprevistos. Tecnologia ajuda quando outras condições também existem. Em atividades muito dependentes de conhecimento tácito, interação contínua ou ajustes difíceis de especificar, a proximidade pode continuar sendo parte da própria capacidade produtiva.
Separar etapas também exige decidir quem controla e quem executa
Mesmo quando uma tarefa pode ser descrita e transportada, ainda resta decidir como ela será organizada. Uma empresa pode realizá-la internamente, abrir uma subsidiária em outro país, contratar um fornecedor independente ou construir uma relação de longo prazo com parceiros especializados. Essas opções não são equivalentes porque distribuem de maneiras diferentes autoridade, risco, investimento e capacidade de adaptação.
Gary Gereffi, John Humphrey e Timothy Sturgeon mostraram que a governança das cadeias varia conforme a complexidade das transações, o grau em que elas podem ser codificadas e as capacidades dos fornecedores.[5] O ponto relevante para este artigo não é transformar essa tipologia em um esquema rígido, mas reconhecer que a fragmentação depende de relações capazes de manter compatíveis atividades que foram fisicamente separadas.
A teoria de Pol Antràs e Elhanan Helpman reforça essa dimensão organizacional ao mostrar que firmas podem escolher entre integração e terceirização, e entre fornecedores domésticos e estrangeiros, de acordo com características da atividade, da empresa e dos investimentos envolvidos.[6] Em algumas situações, transações relativamente padronizadas podem ser coordenadas com contratos de mercado. Em outras, ativos específicos, conhecimento difícil de transferir ou maior risco de coordenação tornam relações mais estreitas ou integração vertical mais atraentes.
Isso ajuda a explicar por que não existe uma única forma de cadeia global. Fragmentar a produção não significa apenas deslocar tarefas, mas construir relações suficientemente estáveis para que atividades realizadas por organizações diferentes continuem produzindo um resultado coerente.
Serviços invisíveis mantêm a cadeia funcionando
A imagem mais intuitiva de uma cadeia internacional costuma privilegiar elementos físicos, como minas, fábricas, navios, portos e centros de distribuição, e deixa de fora uma parte decisiva da coordenação. Transporte, armazenagem, seguros, telecomunicações, software, finanças, certificação, engenharia e gestão não aparecem apenas depois que o bem foi produzido. Em muitos casos, participam da própria possibilidade de produzi-lo de forma distribuída.
A OCDE destaca que redes internacionais de produção combinam relações entre fornecedores independentes com estruturas de multinacionais que operam por meio de afiliadas em vários países, transferem tecnologia e ativos intangíveis e articulam fluxos internos e externos à firma.[2] A presença dos serviços torna essa arquitetura ainda menos visível nas imagens tradicionais da produção, porque parte do que mantém a cadeia funcionando não está incorporada numa peça que possa ser fotografada ou contada como mais uma fábrica.
Esse ponto importa porque evita reduzir a “fábrica mundial” a uma sequência de locais de manufatura. Uma cadeia existe quando atividades diferentes conseguem funcionar juntas. Em alguns casos, o elemento que mais contribui para essa integração é justamente uma infraestrutura de informação, logística e gestão que conecta capacidades dispersas.
A cadeia explica mais do que o país isolado, mas não explica tudo
Se tecnologia, logística e especialização fossem suficientes para empurrar toda produção na mesma direção, seria razoável esperar cadeias cada vez mais longas em praticamente todos os setores. A realidade é mais heterogênea. Produtos e atividades diferem em peso, valor, perecibilidade, sensibilidade a atrasos, necessidade de personalização e dependência de conhecimento tácito. Algumas etapas são relativamente fáceis de separar; outras perdem eficiência quando se afastam das atividades com as quais precisam interagir.
A evolução recente reforça esse limite. Depois da crise financeira global, o crescimento das cadeias perdeu velocidade. Algumas economias aumentaram o uso de insumos domésticos, enquanto outras aprofundaram a integração. A OCDE encontrou que, até 2020, não havia evidência de uma tendência geral de desglobalização e que a fragmentação produtiva permanecia historicamente elevada.[7] Em 2026, a organização voltou a apontar níveis altos de integração, acompanhados por reconfigurações setoriais e geográficas.[2]
É nesse ponto que a posição da CERNELUME se torna explícita: o rótulo “Made in” não deve ser descartado como se fosse falso, porque pode responder corretamente a uma questão jurídica ou aduaneira, mas também não deve ser tratado como descrição suficiente da arquitetura produtiva. Substituí-lo por outra simplificação, como dizer que um produto é “feito em todo lugar”, apenas troca um atalho por outro. A leitura mais precisa pergunta qual capacidade está localizada em cada ponto, qual tarefa foi realizada ali e que relação conecta essa atividade às demais.
Essa perspectiva também evita que a cadeia se transforme em uma explicação total. Países continuam relevantes porque instituições, infraestrutura, trabalho e capacidades produtivas são territorialmente construídos. Firmas continuam relevantes porque tomam decisões, controlam ativos, escolhem fornecedores e definem formas de coordenação. A cadeia adiciona uma dimensão que essas unidades isoladas não capturam quando o processo produtivo atravessa suas fronteiras.
A mesma distinção ajuda a interpretar estatísticas comerciais. Exportações brutas não equivalem automaticamente ao valor produzido dentro do país exportador, pois o bem que cruza a fronteira pode incorporar insumos e serviços originados em outras economias.[1][8] Isso não torna essas estatísticas inadequadas; apenas mostra que elas respondem a outra pergunta, diferente daquela sobre onde estavam as capacidades econômicas que formaram o produto.
Quando a origem de um produto deixa de caber em um único território
Um produto continua chegando ao consumidor como uma unidade física, mas a capacidade de produzi-lo pode estar distribuída. Essa separação entre unidade do bem e dispersão do processo é o que torna insuficiente procurar uma única origem econômica para muitos produtos contemporâneos.
A resposta à pergunta inicial não está em uma tecnologia isolada nem em uma decisão única de deslocar fábricas. Produtos passaram a incorporar contribuições de vários países quando se tornou viável separar determinadas tarefas e manter entre elas coordenação suficiente. Transporte e logística, informação, padrões técnicos, capacidades de fornecedores e formas de governança reduziram custos e permitiram combinar especializações distantes. Onde essas condições não se sustentam, a produção permanece mais próxima, mais integrada ou mais regional.
O efeito mais importante dessa resposta é mudar a pergunta. Em vez de perguntar apenas “de que país é este produto?”, torna-se necessário perguntar também “quais capacidades precisaram existir para que ele pudesse ser produzido?”. Isso não apaga o território, mas torna sua função mais precisa. Diferentes regiões podem contribuir com capacidades distintas para o mesmo resultado sem que todas desempenhem o mesmo papel.
Há também uma consequência humana. Trabalhadores que nunca se encontram podem depender do funcionamento da mesma sequência produtiva, e uma interrupção localizada pode repercutir em produção, disponibilidade, prazos ou emprego em outros pontos da cadeia, embora redundância e substituição possam amortecer esses efeitos. A interdependência não é um juízo sobre a globalização; é uma característica da arquitetura que se forma quando capacidades distantes passam a depender umas das outras.
Compreender a “fábrica mundial” exige, portanto, abandonar duas simplificações ao mesmo tempo: a ideia de que o país estampado no rótulo contém toda a história produtiva e a ideia oposta de que fronteiras e capacidades nacionais deixaram de importar. Um produto pode ser globalmente coordenado justamente porque capacidades concretas permanecem localizadas em lugares específicos. A cadeia não elimina a geografia da produção; revela como geografias diferentes passaram a funcionar em conjunto.
Referências
[1] World Bank. World Development Report 2020: Trading for Development in the Age of Global Value Chains. World Bank, 2020.
[2] OECD. Trends in Global Value Chains. OECD Publishing, 2026. DOI: 10.1787/8217c2ff-en.
[3] Rubínová, Stela; Sebti, Mehdi. The WTO Trade Cost Index and Its Determinants. WTO Working Paper ERSD-2021-6, 2021.
[4] Fort, Teresa C. Technology and Production Fragmentation: Domestic versus Foreign Sourcing. Review of Economic Studies, v. 84, n. 2, p. 650–687, 2017. NBER Working Paper 22550. DOI: 10.3386/w22550.
[5] Gereffi, Gary; Humphrey, John; Sturgeon, Timothy. The governance of global value chains. Review of International Political Economy, v. 12, n. 1, p. 78–104, 2005. DOI: 10.1080/09692290500049805.
[6] Antràs, Pol; Helpman, Elhanan. Global Sourcing. Journal of Political Economy, 2004. NBER Working Paper 10082. DOI: 10.3386/w10082.
[7] Jaax, Alexander; Miroudot, Sébastien; van Lieshout, Elisabeth. Deglobalisation? The reorganisation of global value chains in a changing world. OECD Trade Policy Papers, n. 272, 2023. DOI: 10.1787/b15b74fe-en.
[8] OECD. Interconnected Economies: Benefiting from Global Value Chains. OECD Publishing, 2013. DOI: 10.1787/9789264189560-en.
