DYNAMIS

Como novas potências conseguiram alcançar os primeiros industrializados?

Oficina industrial histórica com máquinas em funcionamento; um trabalhador opera equipamento pesado enquanto três engenheiros analisam um componente mecânico sobre uma bancada com desenhos técnicos, sugerindo aprendizagem e desenvolvimento de capacidade produtiva.
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Quando a industrialização começou a transformar a economia mundial, os primeiros países a dominar novas máquinas, formas de produção e redes comerciais pareciam carregar uma vantagem difícil de recuperar. Quem chegasse depois não precisaria apenas crescer. Precisaria aprender a fazer coisas que outros já faziam melhor.

A hierarquia industrial, porém, não permaneceu imóvel. Estados Unidos e Alemanha reduziram a distância em relação à Grã-Bretanha durante o século XIX. O Japão iniciou sua própria aproximação nas décadas seguintes. Esses casos levantam uma pergunta central: o que permite a uma economia que começa atrás construir capacidades suficientes para se aproximar dos líderes?

Seria conveniente encontrar uma causa dominante proteção, máquinas importadas, bancos, educação ou ação estatal. A história não oferece essa simplicidade. Os mecanismos aparecem combinados, seus efeitos variam conforme o contexto e instrumentos semelhantes podem produzir resultados diferentes.

O padrão mais consistente é outro: chegar depois pode reduzir o custo de descobrir certas tecnologias, mas não elimina a necessidade de aprender a usá-las. O atraso oferece uma oportunidade potencial. O catching-up acontece quando conhecimento disponível se transforma em capacidade própria.

Chegar depois pode ajudar, mas não resolve

Moses Abramovitz formulou uma das referências clássicas para pensar o catching-up. A ideia básica é intuitiva: quem está distante da fronteira tecnológica não precisa inventar tudo do zero. Pode observar técnicas já testadas, importar equipamentos, aprender com empresas estrangeiras e aproveitar conhecimento acumulado em outros lugares. Isso abre espaço para crescer mais rapidamente do que quem já opera próximo da fronteira.[1]

Mas tecnologia disponível não é tecnologia utilizável. Máquinas exigem operadores. Processos exigem engenharia. Investimentos exigem financiamento. Produção em escala exige infraestrutura, fornecedores e mercados. Conhecimento precisa ser interpretado, adaptado e incorporado a rotinas que não chegam automaticamente junto com o equipamento.

Por isso, “vantagem do atraso” pode enganar quando tomada literalmente. O atraso não é uma vantagem em si. Ele torna visível um estoque de conhecimento que um seguidor talvez consiga aproveitar. Entre ter acesso a esse conhecimento e transformá-lo em capacidade existe um processo de aprendizagem.

A questão, então, deixa de ser apenas quais tecnologias estavam disponíveis. Passa a incluir quem conseguia entendê-las, financiá-las, adaptá-las e fazê-las funcionar nas condições locais.

Importar tecnologia não é o mesmo que aprender

A Prússia ajuda a enxergar essa diferença. Ao estudar 334 condados desde o período anterior à industrialização, Sascha Becker, Erik Hornung e Ludger Woessmann encontraram uma associação robusta entre educação básica e industrialização não têxtil nas fases analisadas do século XIX.[2] O resultado não transforma escola em causa única. Mostra que tecnologias mais complexas dependiam também de pessoas capazes de lidar com elas.

Esse aprendizado podia ser bastante concreto. Entre 1877 e 1932, fabricantes alemães de máquinas-ferramenta utilizaram estratégias de imitação para reduzir a distância em relação a concorrentes americanos. Ralf Richter e Jochen Streb mostram que essas firmas acompanhavam patentes e convertiam conhecimento estrangeiro em competência produtiva doméstica.[3]

O Japão Meiji percorreu caminho semelhante por outra combinação institucional. A aprendizagem começou com livros, equipamentos importados, projetos turnkey e especialistas estrangeiros, mas avançou gradualmente para formação de engenheiros, engenharia doméstica, adaptação e maior domínio local da transferência de tecnologia.[4] O objetivo não era apenas possuir máquinas ocidentais. Era depender cada vez menos da competência externa necessária para fazê-las funcionar.

O processo foi lento. Estimativas históricas revisadas indicam que o catching-up japonês em relação à Grã-Bretanha começou depois de 1890 e, em relação aos Estados Unidos, apenas depois da Primeira Guerra Mundial.[5] A experiência Meiji foi importante, mas não transformou instantaneamente o Japão em uma economia na fronteira tecnológica.

Alemanha e Japão apontam para a mesma distinção: tecnologia transferida e capacidade tecnológica não são sinônimos. Uma economia pode comprar equipamentos sem dominar sua lógica, operar processos sem conseguir melhorá-los e produzir bens complexos sem controlar todas as competências que os tornam possíveis.

Capacidades só funcionam em conjunto

Se aprendizagem bastasse, formar pessoas e importar conhecimento resolveria o problema. A industrialização exigia, porém, que outras condições estivessem disponíveis ao mesmo tempo.

As ferrovias mostram isso com clareza. Em Württemberg, no sudoeste alemão, o acesso ferroviário teve efeitos positivos sobre crescimento e industrialização, mas os ganhos foram muito maiores em localidades que já eram maiores e mais industrializadas antes da chegada da ferrovia.[6] Infraestrutura, portanto, não operava sobre uma folha em branco.

O financiamento seguia lógica semelhante. Um estudo sobre o Banco Estatal do Império Russo encontrou que melhor acesso ao crédito público esteve associado a crescimento mais rápido das receitas das fábricas, mecanização e produtividade do trabalho. Os efeitos foram maiores em regiões com menos bancos comerciais e mercados menores.[7]

O achado é mais útil quando mantido dentro de seus limites. Ele não prova que bancos públicos sejam uma fórmula geral para industrialização. Mostra que, quando a falta de financiamento constitui um gargalo efetivo, uma instituição capaz de reduzi-lo pode alterar a capacidade de investir.

Educação, transporte, financiamento, mercados e instituições funcionam de maneira semelhante nesse aspecto: cada um pode ampliar uma capacidade, mas nenhum substitui automaticamente as demais.

Por isso as trajetórias de catching-up tendem a ser cumulativas. Uma empresa que aprende a adaptar uma máquina pode formar engenheiros melhores. Esses engenheiros podem elevar produtividade, desenvolver fornecedores ou criar novos produtos. Um mercado maior pode justificar investimento em escala. Infraestrutura pode ampliar esse mercado. Financiamento pode permitir que empresas aproveitem a oportunidade. As capacidades se reforçam ou se limitam mutuamente.

O mesmo instrumento não produz o mesmo resultado

Esse caráter complementar explica por que casos históricos resistem a fórmulas.

Os Estados Unidos do século XIX, por exemplo, industrializaram-se sob tarifas elevadas. A coincidência histórica, porém, não demonstra que as tarifas tenham produzido o avanço industrial. Alexander Klein e Christopher Meissner, ao estudarem a manufatura americana entre 1870 e 1909, encontram que tarifas reduziram a produtividade do trabalho em média, embora tenham produzido efeitos heterogêneos sobre preços, produção, emprego e número de estabelecimentos.[8]

O resultado não encerra o debate histórico sobre proteção comercial. Ele mostra por que a presença de uma política em um caso de sucesso não pode ser tratada automaticamente como prova de causalidade. Um instrumento pode proteger empresas, alterar preços ou ampliar produção sem necessariamente construir capacidade tecnológica.

Portugal ajuda a enxergar o problema pelo lado oposto. O país tinha acesso ao conhecimento produzido pela Revolução Industrial, mas enfrentava condições materiais que tornavam parte dessas tecnologias menos competitiva. A falta de carvão doméstico encarecia o vapor no interior, enquanto limitações de demanda e integração restringiam a expansão industrial. Depois da Primeira Guerra Mundial, custos energéticos continuaram a pesar sobre a trajetória portuguesa.[9]

A tecnologia existia; sua adoção nas mesmas condições observadas em outros lugares não era automaticamente viável.

Esse caso impede uma leitura voluntarista do catching-up. Economias podem aprender e mudar de posição, mas não escolhem livremente recursos, mercados, custos ou heranças institucionais. Capacidade é construída dentro de condições concretas.

Ao mesmo tempo, essas condições não determinam completamente o resultado. Alemanha, Estados Unidos e Japão também partiram de combinações próprias de restrições e oportunidades. O que aparece em comum não é uma política vencedora, mas a capacidade de combinar aprendizagem com condições materiais e institucionais suficientes para sustentar acumulação produtiva.

Alcançar não é apenas produzir mais

Há ainda uma cautela necessária. Avanço industrial não explica sozinho toda convergência econômica. Stephen Broadberry mostrou que a ultrapassagem da produtividade agregada britânica pelos Estados Unidos e pela Alemanha envolveu também deslocamento de trabalhadores para fora da agricultura e ganhos relativos em serviços, não apenas melhora da posição manufatureira.[10]

Isso impede que “potência industrial”, “economia rica” e “liderança tecnológica” sejam tratadas como expressões equivalentes.

O objeto aqui é mais preciso: como seguidores construíram capacidades produtivas e tecnológicas suficientes para reduzir parte da distância em setores industriais. Nesse campo, produzir mais é apenas uma parte do processo.

Uma economia pode ampliar fábricas importando máquinas. Pode aumentar produção usando tecnologia licenciada. Pode proteger setores existentes ou receber capital e especialistas estrangeiros. Tudo isso pode importar. A mudança se torna mais profunda quando parte do conhecimento deixa de depender exclusivamente de quem veio de fora.

É nesse ponto que catching-up deixa de ser apenas expansão da produção e passa a envolver aprendizagem acumulada.

Por isso, o indicador mais revelador não é a presença isolada de uma tarifa, um banco, uma ferrovia ou uma escola técnica. É o que essas estruturas permitiram que empresas, trabalhadores e instituições passassem a ser capazes de fazer.

Nenhum dos casos analisados chegou ao mesmo resultado pelo mesmo caminho. Nenhum mecanismo aparece como condição suficiente. E a oportunidade de observar tecnologias já existentes só se transforma em avanço quando existe capacidade para absorvê-las.

A pergunta decisiva, portanto, não é qual política os países que chegaram depois copiaram dos vencedores. É que competências conseguiram construir para deixar de depender apenas de copiar.

A hierarquia industrial pode mudar. Mas ela muda quando conhecimento disponível se converte em capacidade acumulada quando uma economia aprende não apenas a usar o que outros desenvolveram, mas também a adaptar, combinar e melhorar aquilo que passou a dominar.

Referências

[1] Abramovitz, Moses. “Catching Up, Forging Ahead, and Falling Behind.” The Journal of Economic History, v. 46, n. 2, 1986, p. 385–406. DOI: 10.1017/S0022050700046209.

[2] Becker, Sascha O.; Hornung, Erik; Woessmann, Ludger. “Education and Catch-Up in the Industrial Revolution.” American Economic Journal: Macroeconomics, v. 3, n. 3, 2011, p. 92–126. DOI: 10.1257/mac.3.3.92.

[3] Richter, Ralf; Streb, Jochen. “Catching-Up and Falling Behind: Knowledge Spillover from American to German Machine Toolmakers.” The Journal of Economic History, v. 71, n. 4, 2011, p. 1006–1031. DOI: 10.1017/S0022050711002221.

[4] Ohno, Kenichi. “Meiji Japan: Progressive Learning of Western Technology.” In: Oqubay, Arkebe; Ohno, Kenichi (eds.). How Nations Learn: Technological Learning, Industrial Policy, and Catch-up. Oxford University Press, 2019, p. 85–106. DOI: 10.1093/oso/9780198841760.003.0005.

[5] Broadberry, Stephen; Fukao, Kyoji; Settsu, Tokihiko. “How did Japan catch-up with the West? Some implications of recent revisions to Japan’s historical growth record.” Asia-Pacific Economic History Review, v. 66, n. 1, 2026, p. 3–32. DOI: 10.1111/aehr.70012.

[6] Braun, Sebastian Till; Franke, Richard. “Railways, Growth, and Industrialization in a Developing German Economy, 1829–1910.” The Journal of Economic History, v. 82, n. 4, 2022, p. 1183–1221. DOI: 10.1017/S0022050722000377.

[7] Suesse, Marvin; Grigoriadis, Theocharis. “Financing Late Industrialization: Evidence from the State Bank of the Russian Empire.” The Journal of Economic History, v. 85, n. 4, 2025, p. 1170–1206. DOI: 10.1017/S0022050725100909.

[8] Klein, Alexander; Meissner, Christopher M. “Did Tariffs Make American Manufacturing Great? New Evidence from the Gilded Age.” NBER Working Paper 33100, 2024, rev. 2025. DOI: 10.3386/w33100.

[9] Henriques, Sofia Teives; Sharp, Paul. “Without coal in the age of steam and dams in the age of electricity: an explanation for the failure of Portugal to industrialize before the Second World War.” European Review of Economic History, v. 25, n. 1, 2021, p. 85–105. DOI: 10.1093/ereh/heaa003.

[10] Broadberry, Stephen N. “How Did the United States and Germany Overtake Britain? A Sectoral Analysis of Comparative Productivity Levels, 1870–1990.” The Journal of Economic History, v. 58, n. 2, 1998, p. 375–407. DOI: 10.1017/S0022050700020556.

Para aprofundar

Uma leitura para aprofundar como países retardatários combinaram comércio, política industrial e construção de capacidades produtivas ao tentar reduzir a distância em relação aos líderes.

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