DYNAMIS

Por que a industrialização começou em alguns lugares antes de outros?

Quando pensamos na Revolução Industrial, algumas imagens aparecem quase automaticamente: carvão, máquinas a vapor, teares mecânicos, fábricas e cidades inglesas crescendo em ritmo acelerado. Como boa parte dessa transformação começou na Grã-Bretanha, parece natural procurar aquilo que o país possuía e os outros não.

O carvão é um candidato óbvio. O capital também. Podemos acrescentar instituições, comércio internacional, conhecimento técnico, infraestrutura e domínio colonial. Cada um desses fatores ajuda a explicar uma parte da história. O problema começa quando tentamos transformar qualquer um deles na explicação inteira.

Outras sociedades também possuíam mercados, riqueza, atividade manufatureira, conhecimento técnico ou recursos naturais. Algumas regiões da Europa e da Ásia eram economicamente sofisticadas muito antes de as primeiras fábricas modernas se espalharem pela Inglaterra. Ainda assim, a industrialização não surgiu em todos esses lugares ao mesmo tempo.

É essa diferença que torna a pergunta interessante. Talvez o elemento decisivo não tenha sido possuir um ingrediente excepcional, mas reunir condições que, em determinado momento, passaram a funcionar umas com as outras.

Ter os ingredientes não significa ter o sistema

A Grã-Bretanha do século XVIII reunia uma combinação peculiar. Os salários eram elevados em comparação com boa parte da Europa e da Ásia, enquanto a energia proveniente do carvão podia ser relativamente barata em regiões importantes da economia. Robert Allen argumenta que essa relação alterava os incentivos enfrentados por produtores e inventores: fazia mais sentido empregar capital e energia para economizar trabalho onde o trabalho custava relativamente mais.[1]

Isso ajuda a entender por que a simples existência de uma tecnologia pode ser enganosa.

Imagine duas regiões capazes de construir a mesma máquina. Na primeira, trabalhadores são relativamente caros e a energia necessária para movimentá-la é barata. Na segunda, mão de obra custa pouco e energia é cara. O equipamento pode reduzir custos na primeira e não compensar na segunda.

Saber construir uma máquina, portanto, não significa que valha a pena usá-la. A inovação também depende dos problemas que são economicamente vantajosos de resolver.

Mas essa explicação encontra seu próprio limite. Se o carvão bastasse, regiões com reservas carboníferas deveriam apresentar trajetórias industriais semelhantes. Não foi o que aconteceu. Ao investigar a importância econômica do carvão inglês, Gregory Clark e David Jacks mostraram que a simples posse das reservas não explica satisfatoriamente a Revolução Industrial e que a expansão da produção carbonífera também respondeu à demanda criada pela própria economia.[2]

Isso não torna o carvão irrelevante. Mostra algo mais preciso: um recurso pode ser muito importante dentro de determinado sistema sem ser capaz de criar esse sistema sozinho.

O mesmo vale para o capital. Dinheiro permite financiar máquinas, instalações, estoques e infraestrutura, mas sociedades comerciais podiam acumular riqueza sem entrar imediatamente em uma trajetória de mecanização contínua. Capital se torna industrialmente transformador quando existem oportunidades produtivas atraentes e capacidade para convertê-lo em produção.

Em vez de perguntar qual ingrediente estava presente, é mais produtivo observar como diferentes condições passaram a se complementar.

Uma máquina precisa ser útil também na contabilidade

Essa mudança de perspectiva ajuda a compreender por que a industrialização não se espalhou pelo mundo assim que as primeiras máquinas apareceram.

Várias tecnologias características da Revolução Industrial foram desenvolvidas dentro de uma estrutura específica de custos. Máquinas de fiação, motores a vapor e novos processos industriais utilizavam mais capital e energia para reduzir determinadas necessidades de trabalho. Nas condições britânicas, essa troca podia ser particularmente atraente.[1]

Em outros lugares, a conta podia ser diferente.

Isso corrige uma interpretação intuitiva do atraso tecnológico: a de que uma sociedade que não adota rapidamente uma tecnologia disponível necessariamente desconhece seu valor ou resiste à inovação. Uma solução tecnicamente superior pode ainda não ser economicamente superior nas condições locais.

A própria difusão posterior da indústria funciona como um teste dessa ideia. Tecnologias desenvolvidas em economias de salários relativamente altos foram aperfeiçoadas, tornaram-se mais produtivas e tiveram seus custos reduzidos. Com o tempo, passaram a fazer sentido em ambientes com estruturas econômicas diferentes. A indústria moderna então se expandiu para outras partes da Europa, para a América do Norte e, mais tarde, para regiões da periferia econômica mundial por trajetórias distintas.[5]

Há aqui uma distinção fundamental: as condições que favorecem o nascimento de uma tecnologia não precisam ser as mesmas que permitem sua adoção depois.

O pioneiro precisa enfrentar parte dos custos da descoberta. Quem vem depois pode importar máquinas, projetos, conhecimento, especialistas e práticas que já foram testadas. Também pode adaptar aquilo que recebeu às próprias condições.

Por isso, explicar por que a industrialização começou primeiro na Grã-Bretanha não equivale a descobrir uma sequência que todos os outros países deveriam repetir.

Incentivo não produz conhecimento

Preços relativos também não resolvem o problema inteiro.

Mesmo que exista uma forte recompensa econômica para mecanizar determinada atividade, isso não produz automaticamente a solução técnica necessária. Perceber que uma máquina seria lucrativa é diferente de saber construí-la, fazê-la funcionar de modo confiável e aperfeiçoá-la até que possa ser utilizada em escala.

As transformações industriais dependeram de mecânicos, artesãos, inventores, fabricantes de instrumentos e outras pessoas capazes de transformar conhecimento em mecanismos operacionais.

Joel Mokyr chama atenção para a expansão do chamado conhecimento útil: formas de compreender fenômenos naturais e técnicos que podiam ser empregadas na solução de problemas produtivos. Em sua interpretação, a Europa moderna desenvolveu redes e instituições que favoreceram tanto a produção desse conhecimento quanto sua circulação entre pessoas capazes de utilizá-lo.[3]

Esse argumento acrescenta uma peça que os incentivos econômicos, sozinhos, não fornecem.

Ter motivo para inovar não significa possuir capacidade para inovar.

O inverso também vale. Conhecimento técnico não produz automaticamente uma economia industrial. Uma sociedade pode reunir técnicas sofisticadas e trabalhadores habilidosos sem que essas capacidades se convertam em mecanização disseminada.

Entre uma boa ideia e um sistema industrial existe uma longa distância. A invenção precisa encontrar financiamento, energia, matérias-primas, trabalhadores, fornecedores, transporte e compradores. Precisa sobreviver ao caminho entre a primeira solução funcional e o uso cotidiano em grande escala.

É nesse intervalo que as instituições ganham importância.

Direitos de propriedade, contratos, mecanismos financeiros, regras comerciais e formas de circulação do conhecimento podem facilitar ou dificultar investimento, experimentação e expansão. O problema aparece quando essa constatação é transformada numa divisão simples entre países com “boas” e “más” instituições.

As próprias instituições mudam em resposta às transformações econômicas.

O estudo de Daron Acemoglu, Simon Johnson e James Robinson sobre a ascensão da Europa atlântica oferece um exemplo dessa interação. Os autores relacionam a expansão do comércio atlântico ao crescimento de grupos mercantis e a mudanças institucionais, especialmente em países onde o poder da monarquia já encontrava determinados limites.[4]

A relação é mais interessante justamente porque não funciona em uma única direção. Comércio altera riqueza e poder; instituições condicionam o efeito dessas oportunidades; novos grupos econômicos podem, por sua vez, influenciar as instituições.

Mais uma vez, o mecanismo depende das conexões.

Quando as condições passam a se reforçar

A industrialização fica mais compreensível quando deixamos de procurar uma causa dominante e observamos como diferentes condições podiam sustentar umas às outras.

Mercados maiores ampliavam as oportunidades de venda. Determinadas relações entre salários, energia e capital aumentavam o retorno de algumas formas de mecanização. Conhecimento técnico permitia transformar problemas produtivos em máquinas e processos. Financiamento ajudava a converter soluções experimentais em capacidade produtiva. Transporte aproximava minas, fornecedores, fábricas e compradores.

Essas relações não tiveram a mesma importância em todos os lugares nem funcionaram de maneira automática. Mas, quando várias delas se encontravam, o resultado podia adquirir uma dinâmica própria.

Uma fábrica criava demanda para fabricantes de máquinas. Esses fabricantes acumulavam experiência. Técnicos especializados tornavam-se mais numerosos. Fornecedores aprendiam a resolver problemas recorrentes. Uma produção maior justificava melhorias no transporte. Mercados maiores aumentavam o retorno potencial de novos investimentos.

A indústria começava, pouco a pouco, a produzir parte das condições necessárias para a expansão da própria indústria.

É essa dinâmica que ajuda a explicar por que diferenças iniciais relativamente limitadas podem crescer ao longo do tempo.

Também mostra por que copiar um único componente raramente reproduz o resultado. Carvão sem capacidade técnica não equivale a carvão integrado a uma economia industrial. Comprar máquinas sem operadores, manutenção, fornecedores ou mercados não cria o mesmo sistema produtivo. Crédito abundante não resolve o problema quando faltam oportunidades técnicas viáveis para financiá-lo.

Capacidade industrial, nesse sentido, não é uma coleção de ativos disponíveis lado a lado. Ela depende das relações entre eles.

Chegar primeiro altera o caminho seguinte

Existe ainda uma diferença entre explicar o primeiro avanço e explicar a vantagem que surge depois dele.

Uma região que industrializa antes acumula mais que fábricas e máquinas. Acumula trabalhadores experientes, engenheiros, fabricantes de equipamentos, fornecedores, instituições financeiras familiarizadas com atividades industriais, infraestrutura especializada e conhecimentos que nem sempre podem ser facilmente registrados ou transferidos.

A precedência pode, assim, tornar-se uma vantagem cumulativa.

Mas isso não significa que a liderança fique congelada.

A tecnologia britânica foi absorvida e adaptada em outros países europeus. Novas potências industriais apareceram. Economias que chegaram depois construíram setores modernos por trajetórias distintas, e a manufatura acabou se expandindo muito além de seu núcleo original. O levantamento histórico organizado por Kevin O’Rourke e Jeffrey Williamson mostra que essa difusão ocorreu sob combinações diferentes de recursos, condições internacionais, políticas e capacidades locais.[5]

O ponto é importante porque impede que transformemos a primeira Revolução Industrial numa receita universal.

À medida que máquinas melhoram, custos diminuem e conhecimento circula, tecnologias desenvolvidas para determinada realidade podem tornar-se úteis em outras. Quem chega depois também pode aproveitar soluções já testadas e combinar capacidades de formas que não estavam disponíveis aos pioneiros.

A história da industrialização desigual, portanto, não oferece uma boa base para imaginar uma hierarquia natural entre sociedades.

Regiões diferentes não começaram com as mesmas condições, não enfrentaram os mesmos custos, não ocuparam as mesmas posições comerciais e não atravessaram a mesma sequência histórica. Essas diferenças condicionaram o que era possível e vantajoso em cada momento.

Isso não elimina escolhas, instituições ou capacidade de adaptação. Apenas impede que resultados históricos sejam convertidos em características permanentes dos povos que os produziram.

A industrialização começou primeiro em alguns lugares porque, em determinados momentos, mercados, incentivos econômicos, energia, recursos, conhecimento técnico, capital, instituições e infraestrutura formaram combinações capazes de tornar a mecanização possível, rentável e escalável. Nenhum desses elementos resolve sozinho o enigma porque seu efeito dependia da presença e do funcionamento dos demais.

Depois que o processo começou, a própria industrialização mudou as condições seguintes. Produziu experiência, fornecedores, infraestrutura, conhecimento e novos mercados. Uma vantagem inicial pôde se ampliar.

Mas a difusão posterior mostra o outro lado dessa história: capacidades produtivas não pertencem naturalmente a um lugar.

Elas são construídas.

E, justamente por serem construídas, podem ser aprendidas, recombinadas, acumuladas e deslocadas. A geografia industrial de uma época não é um retrato permanente da capacidade dos povos. É o resultado provisório de sistemas históricos que, em circunstâncias diferentes, também podem mudar.

Referências

[1] Allen, Robert C. The British Industrial Revolution in Global Perspective. Cambridge University Press, 2009.

[2] Clark, Gregory; Jacks, David. “Coal and the Industrial Revolution, 1700–1869”. European Review of Economic History, v. 11, n. 1, 2007, p. 39–72.

[3] Mokyr, Joel. “The Intellectual Origins of Modern Economic Growth”. The Journal of Economic History, v. 65, n. 2, 2005, p. 285–351.

[4] Acemoglu, Daron; Johnson, Simon; Robinson, James A. “The Rise of Europe: Atlantic Trade, Institutional Change, and Economic Growth”. American Economic Review, v. 95, n. 3, 2005, p. 546–579.

[5] O’Rourke, Kevin H.; Williamson, Jeffrey G. (org.). The Spread of Modern Industry to the Periphery since 1871. Oxford University Press, 2017.

Para aprofundar

Duas leituras selecionadas para aprofundar por que a industrialização surgiu de forma desigual e como tecnologia, recursos, instituições e condições econômicas se combinaram nesse processo.

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