DYNAMIS

Quando a indústria se tornou uma fonte de poder entre países?

Há uma imagem histórica difícil de ignorar. Ao longo dos séculos XIX e XX, vários dos Estados capazes de construir ferrovias, siderúrgicas, estaleiros, máquinas, motores e armamentos em grande escala também ocuparam posições centrais na economia e na política internacional. A associação parece tão intuitiva que pode ser resumida em uma equação simples: mais indústria, mais poder.

Mas essa equação esconde justamente a parte mais importante.

Uma fábrica não influencia outro país por existir. Uma tonelada de aço não estabelece uma aliança. E uma economia grande não transforma automaticamente sua riqueza em navios, exércitos, infraestrutura ou capacidade de impor custos a um adversário. Entre produzir recursos e exercer poder existe uma cadeia de conversão.

Foi essa cadeia que a industrialização transformou.

Ela não criou do zero a relação entre riqueza e poder. Estados já financiavam guerras, mantinham forças militares e disputavam territórios muito antes da Revolução Industrial. O que mudou progressivamente foi a escala, a diversidade e a complexidade dos recursos que um Estado podia produzir e mobilizar. A indústria tornou-se uma base material cada vez mais importante de poder porque ampliou o conjunto de coisas que os governos podiam tentar fazer — desde que fossem capazes de converter essas possibilidades em ação.

O poder já existia antes das grandes fábricas

Se a indústria fosse condição necessária para o poder internacional, as grandes potências anteriores ao século XIX seriam difíceis de explicar.

A Grã-Bretanha é um caso particularmente útil. Antes que sua industrialização atingisse a maturidade, o Estado britânico já havia desenvolvido grande capacidade para financiar guerras, manter forças navais e mobilizar receitas. Pesquisa de Ernesto Dal Bó e colaboradores mostra que o comércio internacional contribuiu de maneira importante para a capacidade fiscal britânica entre o fim do século XVII e o início do XIX, inclusive por meio da tributação associada aos bens comercializados [1].

Isso impede uma conclusão retrospectiva tentadora: a de que a Grã-Bretanha se tornou poderosa simplesmente porque se industrializou.

Poder político e militar já dependia de população, finanças, organização estatal, comércio, tecnologia, geografia e capacidade de arrecadação. A industrialização entrou em uma estrutura que já existia e depois mudou profundamente o que essa estrutura podia mobilizar.

A pergunta mais interessante, portanto, não é quando a indústria “inventou” o poder. É quando determinadas formas de competição entre Estados passaram a exigir capacidades produtivas que economias pouco industrializadas tinham dificuldade crescente para reproduzir na mesma escala.

A mudança estava no que um Estado conseguia sustentar

Durante o século XIX, máquinas a vapor, ferrovias, siderurgia, engenharia e produção mecanizada não aumentaram apenas a quantidade de bens disponíveis. Elas ampliaram a velocidade e o volume com que pessoas, materiais e equipamentos podiam ser produzidos, transportados e substituídos.

Uma ferrovia tem significado econômico evidente: reduz custos de transporte e conecta mercados. Em uma guerra, porém, a mesma infraestrutura pode assumir outra função, permitindo mover tropas, munições, alimentos e equipamentos em uma escala incompatível com sistemas baseados apenas em estradas, animais e deslocamentos a pé.

A industrialização começou assim a modificar não somente quanto uma economia produzia, mas o que um Estado era materialmente capaz de sustentar.

Essa mudança ficou ainda mais evidente quando forças militares passaram a depender de equipamentos industriais complexos. Navios de guerra, artilharia, locomotivas, veículos, aeronaves, sistemas de comunicação e grandes volumes de munição não exigiam apenas dinheiro. Exigiam metalurgia, engenharia, energia, máquinas, trabalhadores qualificados, infraestrutura e cadeias de fornecimento capazes de operar continuamente.

Nesse ponto, a diferença entre riqueza e capacidade produtiva se torna decisiva.

Dinheiro pode comprar equipamentos disponíveis no mercado. Mas, em situações de competição intensa, bloqueio, guerra prolongada ou escassez internacional, a capacidade de produzir, reparar, adaptar e substituir equipamentos pode alterar o conjunto de opções disponíveis para um Estado.

É nesse sentido que a indústria começa a funcionar como base de poder.

Guerras industriais consomem fluxos, não apenas estoques

O efeito aparece com clareza nas guerras de mobilização em massa.

Uma força militar pode entrar em conflito com armamentos previamente acumulados. Se a guerra é curta, esses estoques podem ser suficientes. Quanto mais prolongada e materialmente intensiva ela se torna, porém, mais importante passa a ser a capacidade de repor aquilo que é consumido ou destruído.

A Primeira Guerra Mundial expôs esse problema. No caso da indústria aeronáutica alemã, John H. Morrow mostrou que a expansão da produção durante o conflito exigiu extensa intervenção estatal sobre crédito, matérias-primas, trabalho, preços e organização industrial [2]. A existência de empresas e conhecimento técnico não eliminava o problema da mobilização: era necessário reorganizar recursos para objetivos militares.

A Segunda Guerra Mundial levou essa lógica muito mais longe. Richard Overy destaca que a guerra total exigiu mobilização econômica e industrial em escala sem precedentes, com transferência maciça de recursos da economia civil para a produção militar. A capacidade dos Aliados de compartilhar produção e suprimentos também integrou esse esforço, assim como a produção em massa de equipamentos militares [3].

A lição não é simplesmente que “quem produz mais vence”. Os próprios casos mostram algo mais exigente.

Produção precisa ser orientada, coordenada e distribuída. Gargalos precisam ser enfrentados, matérias-primas precisam chegar, equipamentos precisam ser entregues onde são necessários e o sistema precisa continuar operando enquanto sofre perdas e pressões. Uma grande base industrial amplia o que pode ser mobilizado; ela não realiza a mobilização sozinha.

Entre recursos e poder existe capacidade de mobilização

Essa diferença ajuda a explicar por que países economicamente relevantes nem sempre projetam poder na proporção de seus recursos.

Em estudo publicado em 2026, Johannes Lindvall, Magnus Lundgren e Jan Teorell analisaram países ao longo dos séculos XIX e XX e encontraram evidências de que a capacidade doméstica do Estado influencia sua habilidade de projetar poder militar para além de suas fronteiras. O mecanismo inclui capacidade fiscal, qualidade administrativa e capacidade informacional. Estados mais capazes não apenas executam políticas externas com maior eficiência; também conseguem mobilizar melhor os recursos existentes na sociedade [4].

A distinção muda o raciocínio.

Imagine duas economias com bases produtivas semelhantes. Ambas possuem fábricas, trabalhadores, infraestrutura e renda. Se uma delas consegue arrecadar recursos, coordenar compras, organizar logística e redirecionar produção enquanto a outra enfrenta um Estado fragmentado ou administrativamente incapaz de fazê-lo, seu potencial material não será convertido da mesma forma.

A indústria fornece recursos potenciais; instituições e capacidade estatal ajudam a transformá-los em instrumentos de ação. Ainda resta uma terceira camada: o contexto em que esses instrumentos serão utilizados.

Um navio de guerra tem determinado valor para um país insular e outro para um Estado continental. Uma grande siderurgia pode ser decisiva em determinada fase tecnológica e menos discriminante em outra. Uma infraestrutura ferroviária pode transformar a mobilização militar em um século e deixar de representar o principal diferencial em outro.

Por isso, não existe uma quantidade universal de indústria que possa ser convertida em uma quantidade previsível de poder.

Produzir muito não significa produzir o que importa

A ideia de “potência industrial” costuma condensar capacidades muito diferentes em uma expressão única.

Volume de manufaturas é apenas uma delas. Também importam produtividade, engenharia, capacidade tecnológica, domínio de processos, produção de bens de capital, infraestrutura, conhecimento técnico acumulado e possibilidade de mudar rapidamente a composição da produção.

Essas capacidades não são equivalentes.

Um país pode fabricar enorme quantidade de produtos finais e continuar dependente de máquinas, componentes, energia ou conhecimento técnico provenientes de fora. Outro pode representar parcela menor da produção mundial, mas controlar capacidades difíceis de substituir em uma área decisiva.

Mesmo em uma guerra, capacidade produtiva e eficiência produtiva não são a mesma coisa. O estudo de Alexander Field sobre a mobilização norte-americana na Segunda Guerra mostra uma economia capaz de gerar extraordinário volume manufatureiro ao mesmo tempo em que enfrentava perda de produtividade decorrente da mudança abrupta para produtos e processos pouco familiares. O desempenho militar-industrial não pode ser reduzido a uma história simples de eficiência crescente [5].

A pergunta “quanto produz?” é, portanto, insuficiente.

É preciso perguntar o que produz, com que conhecimento, usando quais insumos, em que escala, com quanta capacidade de adaptação e para quais necessidades estratégicas.

Autonomia não significa produzir tudo sozinho

Da ideia de indústria como base material de poder pode surgir outro salto indevido: se depender do exterior cria vulnerabilidade, então o máximo de poder estaria na autossuficiência.

A história não sustenta essa conclusão de forma geral.

O próprio desenvolvimento do Estado fiscal-militar britânico esteve ligado ao comércio internacional, não ao isolamento econômico. Dal Bó e colaboradores mostram que receitas associadas ao comércio externo tiveram peso relevante na capacidade fiscal britânica [1].

Na Segunda Guerra Mundial, a força material dos Aliados também não resultou de cada país produzir sozinho tudo de que precisava. Overy destaca a importância da possibilidade de compartilhar produção entre Estados Unidos, Reino Unido, União Soviética, China e Império Britânico [3].

Interdependência, portanto, não é sinônimo de fraqueza.

Ela se torna estrategicamente relevante quando uma dependência pode reduzir opções em circunstâncias nas quais determinado recurso é indispensável, difícil de substituir e sujeito a interrupção ou coerção.

Essa é uma definição mais exigente de autonomia.

Autonomia estratégica não precisa significar ausência de dependências. Pode significar preservar alternativas suficientes para que uma dependência não retire de forma desproporcional a capacidade de decidir e agir. Uma concepção mede quantos bens são produzidos dentro das fronteiras. A outra pergunta quais opções continuam disponíveis quando as condições mudam.

A indústria amplia possibilidades; não garante resultados

A capacidade industrial passou a importar cada vez mais para o poder entre Estados porque a própria competição internacional se tornou materialmente mais exigente.

Ferrovias, navios, aço, máquinas, aeronaves, veículos, sistemas de comunicação e produção em massa ampliaram a quantidade e a complexidade dos recursos necessários para sustentar determinadas formas de guerra e projeção de força. Uma economia capaz de produzir e repor esses recursos ganhou possibilidades que outras tinham maior dificuldade para reproduzir.

Mas possibilidades não são resultados.

Para transformar capacidade produtiva em poder, um Estado precisa mobilizar recursos, financiá-los, coordená-los e aplicá-los a um objetivo. Precisa operar dentro de uma geografia, de alianças, de mercados e de uma tecnologia específica. E precisa decidir usar as capacidades que possui.

Por isso, indústria não é poder em estado bruto. Ela faz parte da infraestrutura de possibilidades de um país.

A consequência é que avaliar poder industrial exige abandonar rankings simples de produção. Um país é estrategicamente mais capaz não apenas porque fabrica muito, mas porque consegue combinar produção, tecnologia, infraestrutura, finanças, instituições e acesso externo de uma forma que preserve opções quando precisa agir.

A pergunta mais útil deixa então de ser “quem tem mais indústria?”.

Passa a ser:

o que essa estrutura produtiva permite que um Estado faça — e o que ainda o impede de fazê-lo?

Referências

[1] Dal Bó, Ernesto; Hutková, Karolina; Leucht, Lukas; Yuchtman, Noam. “Dissecting the Sinews of Power: International Trade and the Rise of Britain’s Fiscal-Military State, 1689–1823.” The Journal of Economic History, v. 85, n. 2, 2025, p. 336–369.

[2] Morrow Jr., John H. “Industrial Mobilization in World War I: The Prussian Army and the Aircraft Industry.” The Journal of Economic History, v. 37, n. 1, 1977, p. 36–51.

[3] Overy, Richard. “Economies in Total War.” In: The Oxford History of World War II. Oxford University Press, 2023, p. 219–240.

[4] Lindvall, Johannes; Lundgren, Magnus; Teorell, Jan. “Projecting power at home and abroad: domestic state capacity and military capability.” Journal of Peace Research, v. 63, n. 4, 2026, p. 507–520.

[5] Field, Alexander J. The Economic Consequences of U.S. Mobilization for the Second World War. Yale University Press, 2022.

Para aprofundar

Uma leitura para aprofundar como capacidade produtiva, recursos, mobilização econômica e organização estatal condicionam o poder em guerra — e por que volume industrial não se converte automaticamente em resultado estratégico.

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