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De onde vem o dinheiro que circula na economia?

Quando alguém recebe o salário, paga uma compra ou transfere dinheiro para outra pessoa, parece que o dinheiro apenas muda de mãos. Essa experiência cotidiana favorece uma imagem bastante intuitiva: em algum momento, todos os reais que circulam pela economia teriam sido criados por uma autoridade, colocados no sistema e depois distribuídos entre pessoas, empresas e bancos.

Essa imagem explica apenas parte do que acontece.

Em uma economia monetária moderna, aquilo que chamamos de dinheiro assume formas diferentes. Parte corresponde à moeda emitida pelo Banco Central. Outra parte existe como depósitos mantidos nos bancos comerciais. Essas formas estão conectadas, mas não surgem necessariamente pelo mesmo mecanismo.

Por isso, responder de onde vem o dinheiro exige separar processos que parecem semelhantes quando observamos apenas nossa conta bancária: criar um saldo monetário, transferir um saldo que já existe e liquidar pagamentos entre instituições diferentes.

A diferença entre esses movimentos é o que permite enxergar o sistema com mais precisão.

O dinheiro da sua conta não é uma pilha guardada no banco

Quando abrimos o aplicativo do banco e vemos um saldo de R$ 5 mil, é natural imaginar que existe uma quantidade equivalente de dinheiro previamente recebida pela instituição e mantida em algum lugar à nossa disposição.

O funcionamento contábil é diferente.

O saldo registrado na conta é uma obrigação do banco perante o cliente. Para o correntista, representa um ativo: existe o direito de utilizar aquele valor. Para o banco, o mesmo depósito aparece como um passivo, porque a instituição deve honrar os pagamentos, transferências ou saques solicitados pelo titular.

Isso não torna o depósito menos real como dinheiro. Ele pode comprar produtos, pagar dívidas e ser transferido para outras pessoas. No cotidiano, esperamos que R$ 100 depositados em uma conta tenham o mesmo poder de pagamento que R$ 100 em espécie.

Ainda assim, não se trata da mesma forma monetária.

O Banco Central Europeu distingue a moeda de Banco Central do dinheiro emitido pelos bancos comerciais. A primeira inclui cédulas e as reservas mantidas pelas instituições financeiras no Banco Central. A segunda aparece principalmente como depósitos bancários utilizados por famílias e empresas.[1]

As estatísticas brasileiras também deixam essa composição visível. O Banco Central do Brasil define o M1, uma medida restrita dos meios de pagamento, como a soma do papel-moeda em poder do público com os depósitos à vista.[2]

Já temos, portanto, uma primeira correção no modelo mental: nem todo dinheiro utilizado na economia é moeda física que foi emitida e depois depositada em um banco.

Uma parcela importante existe como saldo bancário.

Resta entender como esse saldo pode surgir.

Quando um empréstimo faz aparecer um novo depósito

Imagine que um banco aprove um financiamento de R$ 50 mil para uma empresa.

Uma representação comum desse processo seria a seguinte: algum cliente depositou R$ 50 mil no banco; a instituição separa esse dinheiro e o entrega à empresa que pediu o financiamento.

A operação não precisa ocorrer dessa forma.

Quando concede o crédito, o banco pode registrar simultaneamente dois movimentos em seu balanço. De um lado, surge um ativo de R$ 50 mil: o direito de receber o empréstimo no futuro. Do outro, surge um passivo de R$ 50 mil: o depósito colocado à disposição do tomador.

O Bank of England descreve esse processo destacando que a concessão de crédito por um banco cria simultaneamente um depósito correspondente na conta do cliente.[3] A Bundesbank apresenta o mesmo mecanismo e observa que bancos também podem criar depósitos em determinadas operações de aquisição de ativos de agentes não bancários.[4]

Antes do empréstimo, aquele depósito específico não existia. Depois da operação, há um novo saldo que pode ser utilizado na economia.

Isso é criação de dinheiro bancário.

Mas há uma distinção importante. Dizer que o banco criou um depósito não significa dizer que criou riqueza do nada.

A empresa do exemplo passou a dispor de R$ 50 mil, mas também assumiu uma dívida de R$ 50 mil. O banco ganhou o direito de receber o empréstimo e, ao mesmo tempo, assumiu a obrigação correspondente ao novo depósito.

O balanço cresceu dos dois lados.

A criação de dinheiro pode aumentar os meios de pagamento disponíveis sem produzir, por si só, novas máquinas, imóveis, alimentos, conhecimento ou qualquer outro recurso real. O que surge inicialmente é uma nova relação financeira.

O processo também pode seguir no sentido contrário. Quando o principal de um empréstimo bancário é amortizado, o depósito utilizado no pagamento diminui e o crédito registrado no ativo do banco também é reduzido. O dinheiro bancário criado anteriormente pode, portanto, desaparecer à medida que esses balanços se contraem.[1][3]

Dinheiro bancário não apenas circula. Ele também pode ser criado e destruído.

Mas ainda falta uma parte importante da explicação: o que acontece quando esse dinheiro precisa sair do banco que o criou e chegar a outra instituição?

Criar dinheiro não é o mesmo que movimentá-lo

Voltemos aos R$ 50 mil.

Suponha que a empresa utilize o financiamento para pagar um fornecedor.

Se os dois mantêm contas no mesmo banco, a instituição pode reduzir o depósito do comprador e aumentar o depósito do vendedor. Os R$ 50 mil mudaram de titular, mas essa transferência não criou outros R$ 50 mil.

Agora imagine que o fornecedor tenha conta em outro banco.

O banco do comprador reduz o saldo de seu cliente. O banco do vendedor precisa reconhecer o novo saldo do fornecedor. Entre as duas instituições, porém, existe também uma obrigação a ser liquidada.

É aqui que outra forma de dinheiro entra em cena: as reservas mantidas pelos bancos junto ao Banco Central.

Elas não são o saldo que famílias e empresas normalmente utilizam para fazer compras. Entre outras funções, servem como ativo de liquidação entre instituições financeiras. No Brasil, o Sistema de Transferência de Reservas, o STR, integra essa infraestrutura e é descrito pelo Banco Central como o núcleo do Sistema de Pagamentos Brasileiro no qual ocorre a liquidação final das obrigações financeiras.[5]

Agora é possível separar os movimentos.

O banco pode ter criado um depósito quando concedeu o crédito. Depois, quando o cliente utiliza esse depósito e o pagamento precisa chegar a outra instituição, ocorre uma transferência entre clientes acompanhada pelos mecanismos de liquidação entre os bancos.

O processo que criou o dinheiro e o processo que o movimentou não são o mesmo.

Essa distinção ajuda também a interpretar os instrumentos de pagamento. Uma transferência eletrônica pode mover um saldo rapidamente de uma pessoa para outra, mas a velocidade ou a tecnologia usada na operação não significa que cada pagamento esteja criando novo dinheiro.

O saldo precisa ter uma origem anterior.

Em certas situações, essa origem está na emissão de moeda de Banco Central. Em outras, está na expansão do balanço de um banco comercial. Há ainda operações que simplesmente redistribuem dinheiro já existente.

Por isso, diante de um saldo que aparece ou muda de lugar, vale perguntar: houve criação de um novo passivo monetário, conversão entre formas de dinheiro ou apenas transferência de um saldo que já existia?

Criar depósitos não significa poder criar sem limites

A descrição da criação bancária pode levar a outro erro.

Se um banco consegue registrar simultaneamente um empréstimo e um depósito, pareceria que poderia conceder crédito sem limite e aumentar indefinidamente a quantidade de dinheiro.

A contabilidade explica como o depósito pode surgir. Ela não elimina as condições econômicas que cercam a operação.

Ao conceder um empréstimo, o banco assume risco. O cliente pode não pagar. A instituição precisa administrar capital, liquidez, financiamento e exigências regulatórias. Também considera o custo de seus recursos, a rentabilidade esperada da operação e o comportamento dos depósitos que criou.

Esse último ponto se torna mais claro quando o dinheiro sai da instituição.

O depósito criado pelo banco pode permanecer ali, mas também pode ser transferido para outro banco. Nesse caso, a instituição que concedeu o crédito precisa conseguir liquidar essa saída. Reservas bancárias, captação, financiamento e gestão de liquidez tornam-se relevantes.[4]

Assim, dizer que reservas previamente excedentes não precisam existir antes de cada novo empréstimo não significa dizer que reservas e liquidez sejam irrelevantes depois da concessão.

A capacidade contábil de criar um depósito também não torna todo empréstimo economicamente desejável.

É preciso haver demanda por crédito. O banco avalia o risco do tomador e a rentabilidade esperada. Regras prudenciais impõem restrições. As condições monetárias alteram custos e incentivos. O ambiente econômico influencia a disposição de famílias e empresas para assumir novas dívidas.

A criação de dinheiro bancário ocorre dentro dessa rede de relações e condicionantes.

Dois modelos simplificados falham justamente por ignorar lados diferentes do processo. Em um, o banco aparece apenas como intermediário de dinheiro que alguém necessariamente poupou antes. No outro, aparece como instituição capaz de criar poder de compra sem restrições relevantes.

Nenhuma das duas imagens descreve adequadamente o mecanismo.

Não existe uma única torneira de onde todo o dinheiro sai

Então, de onde vem o dinheiro que circula na economia?

Uma parte vem da moeda emitida pelo Banco Central, inclusive a moeda física que chega ao público e a moeda de Banco Central utilizada pelo sistema financeiro. Outra parte surge quando bancos comerciais expandem seus balanços, principalmente pela concessão de crédito e, em algumas situações, pela aquisição de ativos de agentes não bancários.

Depois de criado, esse dinheiro pode passar por muitas pessoas e empresas sem que cada pagamento represente uma nova criação monetária.

A origem do dinheiro, portanto, não é bem descrita pela imagem de uma instituição única que abre uma torneira e abastece toda a economia.

Há diferentes emissores, diferentes formas de dinheiro e funções distintas. O Banco Central e um banco comercial não exercem o mesmo papel nem possuem poderes equivalentes. Ao mesmo tempo, aquilo que utilizamos como dinheiro no cotidiano depende da capacidade de essas camadas permanecerem conectadas.

Essa perspectiva também ajuda a dimensionar o poder envolvido na criação monetária.

Reconhecer que bancos podem criar depósitos não exige tratá-los como criadores irrestritos de riqueza. Reconhecer a função central do Banco Central também não exige atribuir a ele a criação direta de cada unidade de dinheiro mantida pelo público.

O modelo mais preciso é o de uma arquitetura monetária em que passivos emitidos por instituições diferentes podem ser criados, transferidos, convertidos e extintos sob determinadas regras.

E esse modelo muda a próxima pergunta.

Se a criação de crédito pode fazer surgir dinheiro bancário, mas essa criação depende de riscos, custos, incentivos, liquidez e condições monetárias, torna-se necessário entender o que determina o preço pelo qual esse crédito é oferecido.

É nesse ponto que os juros deixam de ser apenas uma porcentagem cobrada sobre um empréstimo e passam a ocupar seu lugar dentro do funcionamento do sistema monetário.

Referências

[1] European Central Bank. What is money? Publicado em 24 nov. 2015; atualizado em 19 jun. 2024.

[2] Banco Central do Brasil. Estatísticas Monetárias — Panorama das Sociedades de Depósito.

[3] McLEAY, Michael; RADIA, Amar; THOMAS, Ryland. Money creation in the modern economy. Bank of England Quarterly Bulletin, 2014 Q1.

[4] Deutsche Bundesbank. The role of banks, non-banks and the central bank in the money creation process. Monthly Report, abril de 2017.

[5] Banco Central do Brasil. Sistema de Transferência de Reservas (STR).

Para aprofundar

Duas leituras selecionadas para aprofundar a natureza do dinheiro, sua evolução histórica e o papel dos bancos e do crédito nos sistemas monetários modernos.

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